Hong Sang-soo encontra Quentin Meillassoux

Contingência e repetição em Certo agora, errado antes

Autores

DOI:

https://doi.org/10.22475/rebeca.v15n1.1281

Palavras-chave:

Contingência, Filosofia especulativa, Hong Sang-soo, Repetição

Resumo

O artigo explora a relação entre contingência e repetição no cinema de Hong Sang-soo, com foco no filme Certo agora, errado antes (2015). Identificamos três abordagens anteriores da obra (de inspiração deleuziana, humanista-existencial e psicanalítica) que centralizam a participação subjetiva do espectador na constituição do sentido do filme. Sugerimos, todavia, que a ênfase excessiva na perspectiva do sujeito-espectador ofusca o papel da contingência no próprio arranjo repetitivo construído por Hong. Para evidenciar essa dimensão, articulamos nossa leitura a entrevistas do diretor e à filosofia especulativa de Quentin Meillassoux (2008, 2016), para quem a contingência é a única necessidade (isto é, não há razão suficiente para que qualquer estado de coisas persista). Em suas declarações, Hong defende a ideia de “infinitos mundos possíveis” e a inserção de elementos não planejados no processo de filmagem. Essa afinidade entre o gesto cinematográfico de Hong e o pensamento de Meillassoux permite conceber a repetição no filme não como portadora de sentido, mas como indício da precariedade do próprio sentido. Ainda que certos eventos se repitam, eles o fazem por força de uma contingência indiferente ao olhar humano. Nesse ponto, uma leitura psicanalítica se torna útil: o sentido surge como função de gozo, e não como reflexo de uma ordem racional. Assim, ao destacar o papel da contingência, argumentamos que o cinema de Hong não afirma sentidos, mas os desestabiliza, revelando o esforço do sujeito em projetar inteligibilidade sobre mundos que, em sua estrutura, estão desprovidos de razão de ser.

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Biografia do Autor

Bernardo Sollar Godoi, Universidade Federal de Minas Gerais

Doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Realiza pós-doutorado no Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFMG. Participa do Laboratório Psicanálise no Século XXI (Lab21/UFMG).

Dalila Rodrigues de Amorin, Universidade Federal de Minas Gerais

Realiza mestrado no Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Participa do Laboratório Psicanálise no Século XXI (Lab21/UFMG).

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Publicado

2026-03-03